"Enquanto houver champanhe há esperança" (Zózimo)
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Rio de Janeiro, Brazil
Sem uma verdade-conclusão, sigo escrevendo com paixão sobre tudo que absorve essa existência do cão.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Choro

Ouvindo sem parar Gal cantar 'Mãe'. Ficou no repeat várias vezes. Não quero parar de ouvi-la desde que fui ao show. O título é uma palavra que nunca mais vou usar como vocativo. Não posso mais chamá-la. Quer dizer, até posso, mas ela não pode me responder. Não como fazia antes. Lembro tanto das mãos e do nariz. O sorriso, a voz, o cabelo vermelho. Sempre bonita e maquiada. Tão meiguinha! Às vezes, durona. Mas tinha um coração tão grande, era passional quase sempre(pausa para choro). Agora está lá, ao lado de outras três pessoas que foram e sempre serão tão importantes na minha vida. Só me sinto sem chão. Perder a mãe é o verdadeiro corte do cordão umbilical, uma distância, um rompimento tão drástico e definitivo. Os próximos minutos, horas, dias da minha vida têm sido sem ela já tem um tempo. E eu me sinto como uma criança que ficou órfã. A vida também pode ser madrasta e solitária. No fundo, estamos todos sós na hora da angústia.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Uma noite reveladora

Enquanto reparo se a respiração dela está normal, ouço os roncos dele. Uma noite jamais pensada no hospital. Nós três burlando as regras outra vez. Ela dorme sorridente, como se fosse acordar de um sonho delicioso, e, quem sabe, se levantar e sair correndo. Continua linda. Sua beleza é indestrutível, assim como o afeto que todos nutrem por ela. O sono dos justos ela está tendo agora. Viveu 100 anos em 56, numa velocidade e numa intensidade estonteante. Buscou o sentido da vida, uma resposta, e só agora parece ter encontrado. E estava tudo bem debaixo de seu nariz. Que capacidade incrível de transformar qualquer pessoa que teve oportunidade de conhecê-la. São tantos exemplos, basta olhar ao redor. Certa ou equivocada, é um exemplo de ser humano. Que orgulho ser criado por uma criatura tão intuitiva, evoluída, cheia de graça. Ela é imortal, está sendo aguardada no céu. Vai poder, enfim, reencontrar o filho de quem sentiu tanta falta nesses últimos 28 anos. Vai pegá-lo no colo para criá-lo até que nós também estejamos preparados para nos reencontrar do lado de lá. Eles já estão ansiosos por sua chegada e nós apenas precisamos deixá-la partir, sabendo que sua existência jamais há de se desintegrar em nossos corações.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Stranger in the night

Mais uma mala para ser feita. Só não sei como vou conseguir enfiar dentro dela todas as lembranças que estão passando pela minha cabeça. Uma angústia que precisava ser depositada em algum lugar. O tempo também passou para mim. Já consigo perceber no espelho algumas marcas. Dez anos se passaram e eu estou aqui, sozinho. Hoje, eu não queria que ninguém aparecesse. Tive três perdas muito significativas nesses últimos dois anos. Assim, sem explicação aparente, vítimas do destino, elas se foram. Desse plano. Na verdade, continuam por aqui. São presentes não só na memória, mas também nos objetos que me cercam. Quero acreditar que elas levam vantagem sobre mim e todos os outros que aprendem diariamente a lidar com a saudade. Mas o pior é que tem gente viva que faz tanta falta, que não é mais como um dia de quase dez anos atrás. Esses buracos são preenchidos com muito trabalho, sangue, suor e algumas lágrimas, até transbordam às vezes. E eu devia estar muito feliz por isso. Em parte, estou. Nem poderia ter motivos para queixas. Seria absurdo. Com viagem marcada para daqui a três dias, com direito a uma semana de descobertas e todo o luxo do mundo, I only need to pack my life!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Uma noite de verão em Botafogo

Caramba! Primeira postagem do ano com dois meses de atraso. Mas é que 2012 chegou uma força tão avassaladora e, ao mesmo tempo, contagiante. Não sei se isso tem a ver com tudo aquilo que dizem sobre o ano que, supostamente, o mundo deveria acabar. Talvez essa sensação de proximidade da extinção esteja inconscientemente nos influenciando. E, por isso, não há lamentos a serem feito. Pelo menos da minha parte. Acabo de parir mais um filho. Esse parece que já nasceu maior do que os outros. Pode ser empolgação do momento, mas é o que eu sinto e é o que me move todos os dias. Difícil não cair em descontentamento às vezes. Mas tudo parece ser tão passageiro e tem aparência de solução. Para cada perda uma compensação. São confortos tão seguros que até conseguem suprir qualquer ausência. Esse mundo que nunca para de girar e traz acertos de contas, revoluções, pacificações e atravessa muita turbulência no caminho. É a inveja gulosa, voraz, a dissecação da nossa alma quase que diariamente. Haja alho, pé de coelho, fitinha do Senhor do Bonfim e armas de Jorge para blindar os ataques. E o Brasil parece que vai bem também. Aquele papo de recessão, desemprego, deu uma certa trégua. Trinta anos se passaram. Três décadas eu atravessei. O número não me deprime. Acontece que os balancetes são latentes. É como se uma parte do quebra-cabeça estivesse perto de ficar completa e como se eu ficasse livre das peças que não se encaixam mais. Ainda que algumas delas sejam figurinhas repetitas. E, enquanto permanecem, eu continuo me desdobrando e me ferindo para que elas me queiram assim como sempre quero estar colado nelas.